



“Perdoa-me, perdoa-me a falta de forças, o cansaço, os meus quarentas anos, a pouca esperança e a nenhuma alegria... perdoa-me, porque não regressarei sem ti ao inocente bosque da infância. E dentro de mim tudo voltará a acender-se como os ossos à noite, nos cemitérios de automóveis.
E no centro duro da cidade, um grito. Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar. E sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado, tem a dimensão de um túmulo, e todos os teus gestos são uma sinalização em direção à morte – embora seja absurdo morrer.
Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso. Possuo para sempre tudo o que perdi. E uma abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada. Penso em ti. Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto – aqui sentado, junto à janela fechada. Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na tênue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge”
Al Berto – última página de Lunário.
“Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes. [...]
Fecho os olhos, agito a cabeça para repelir a visão que me exibe essas deformidades monstruosas.
A vela está quase a extinguir-se.
Julgo que delirei e sonhei com atoleiros, rios cheios e uma figura de lobisomem.
Lá fora há uma treva dos diabos, um grande silêncio. Entretanto o luar entra por uma janela fechada e o nordeste furioso espalha folhas secas no chão.
É horrível! Se aparecesse alguém... Estão todos dormindo. [...]
E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos.”
Graciliano ramos – última página de S. Bernardo.
Será que não poderíamos dizer: Nós o matamos!
Será que dizer isso, ao comentar a morte do ídolo pop Michael Jackson, seria absurdo?
Penso que não.
A ilusão do sucesso e do dinheiro como garantias de uma vida, e de uma vida feliz faz, de histórias como a dele, mitos. Histórias que tentam explicar porque um astro milionário e talentoso pode tornar-se, nas mãos, olhos, ouvidos, bocas e dentes de seu consumidor, um resto, uma ruína.
Me estranha imensamente as revistas que o vangloriam, que tentam faze-lo um belo standard da fama. Como se me dissessem assim: é mentira que ele foi massacrado pelo pai, que ele estava sem sua face, sem sua cor, sem sua voz, sem seu corpo. Um destituído.
A música de antigamente era bem bacana, mas atualmente, ninguém lembrava dele.
Mas ele morreu, ele é pop, ele é conhecido por todo o planeta, logo temos que sofrer, lembrar. Tudo bem, no início até me voltei àquelas lembranças da presença dessa figura na minha vida, no meu pensamento. Lembrei de ouvir Bily Jean cantado por Caetano e sempre gostar, ouço muito ainda.
Lembrei dele criança e gostei do que vi. Um pequeno rapaz negro cheio de suingue, uma ebulição musical. Ali, ainda que esmagado pelo pai terrível ele era muito mais razoável e quem sabe mesmo, nessa época apenas, ele tenha sido feliz.
Já cheguei a pensar que ele era delirante, um louco a achar que é o Peter Pan, a comprar coisas estranhas e produzir notícias estranhas e confusas.
Ontem, todo mundo escrotizava o cabra, era um pedófilo, louco, vaidoso e racista.
Hoje, dizem que ele estava deprimido, dependente há muito de analgésicos, vítima da depressão, de outras doenças. Ele fez um acordo para livrar-se de um processo por pedofilia. Agora, porém, aguardemos. Mostram-no sem nariz, com o rosto desfigurado.
O que se evoca aí? Tenho a impressão, ao ver o rosto com o nariz roído que se pede para rirmos do trágico de nosso tempo. Quem o roeu: a vaidade, o vitiligo, uma doença, o consumo?
O pop é muito louco: não precisa de mensagem, é mera diversão. Efeitos, cores, sons, gestos, palcos. Vazios de qualquer outra coisa que não cumpra a função de celebrar a sensualidade mais rasa.
Oco de tanto ser pop, fico aqui elocubrando se ele não poderia ter pagado uma eutanásia. Seu corpo não se calou! Estava insuportável! Me lembro de Edith Piaf pedindo à heroína o silêncio do corpo. Mas o corpo grita!
Pode ter sido um louco perverso, ou uma pessoa sofrida, desorganizada em meio a tanta imagem, tanta especulação, tanta exposição do que poderia ter ficado ainda íntimo, sem a visão da câmera onipresente que o consumiu.
Lembro do pop star americano e penso que ele já não devia querer viver mais. Talvez imensos shows não fossem os motivos suficientes para manter o desejo de viver.

